Eu trabalho com criação de produtos digitais há 30 anos. Pois é, construí meu primeiro website com 15 anos, em 1995. De lá para cá, trabalhei em diversos projetos para variados mercados e finalidades, e posso dizer com tranquilidade que a acessibilidade para produtos digitais quase nunca é um tema prioritário. Normalmente, quando pensamos em acessibilidade para web, pensamos em deficientes visuais, onde a solução padrão é um leitor de tela, ou em deficientes auditivos que dependem da tradução do conteúdo em Libras para compreenderem o que queremos comunicar. Contudo, no Brasil, acessibilidade em UX (User Experience) e Design não é apenas uma questão de boas práticas — é uma obrigação legal. A Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), estabelece que é dever de toda organização garantir que seus produtos e serviços digitais sejam acessíveis para todas as pessoas, independentemente de suas habilidades físicas, cognitivas ou emocionais. E a necessidade de acessibilidade extrapola as limitações visuais e auditivas, que normalmente são priorizadas.
Três Tipos de Deficiências a Considerar
Antes de aprofundar nesse tema, é importante entendermos que a acessibilidade para web deve considerar três tipos macro de deficiências:
- Deficiências Permanentes: Pessoas que possuem algum tipo de deficiência de caráter permanente, como deficientes visuais, auditivos, amputados, etc.
- Deficiências Temporárias: Pessoas que estão temporariamente em uma situação de deficiência, como alguém com um braço quebrado, que fez uma cirurgia em um dos olhos, etc.
- Deficiências Situacionais: Limitações que afetam todos nós em diversos momentos do dia, como alguém usando fones de ouvido ou em um ambiente ruidoso limitando sua audição, carregando um bebê no colo ou sacolas limitando sua mobilidade, ou dirigindo um carro, onde a atenção deve estar focada na direção.

Dito isso, a acessibilidade refere-se às qualidades que tornam uma experiência aberta e utilizável por todos. Isso inclui desde soluções para pessoas com deficiências permanentes até adaptações para deficiências temporárias ou situacionais. A Microsoft mantém um guia chamado “Inclusive 101”, que abrange esse assunto de forma bastante profunda e didática, ajudando a entender por que projetar para acessibilidade também beneficia pessoas sem deficiências, ampliando a usabilidade geral dos produtos.

Por exemplo, legendas em vídeos foram inicialmente criadas para pessoas com deficiência auditiva, mas hoje são amplamente utilizadas por pessoas em ambientes ruidosos ou que preferem assistir a conteúdos sem som — como minha esposa, por exemplo. Outro exemplo é a preocupação de aplicativos em fornecer uma experiência satisfatória para o uso com apenas uma mão, como o Uber, ou com limitação de atenção, como o modo simplificado do Spotify para motoristas.
Design Inclusivo
O design inclusivo, um conceito complementar à acessibilidade, baseia-se em três princípios principais:
- Reconheça a Exclusão: Entenda como as barreiras surgem das interações entre pessoas e sistemas. Por exemplo, um site que depende exclusivamente de interações visuais pode excluir pessoas cegas ou com baixa visão. Um aplicativo que emite alertas sonoros pode ter a experiência prejudicada em um ambiente ruidoso, como uma rua movimentada ou um bar.
- Aprenda com a Diversidade: As soluções mais eficazes vêm da compreensão de como diferentes pessoas interagem com os produtos. Co-criar com usuários de diversas capacidades é essencial.
- Resolva para Um, Estenda para Muitos: Ao projetar para necessidades específicas, criamos soluções que beneficiam um público mais amplo. Um exemplo é o uso de assistentes de voz, que auxiliam tanto pessoas com deficiências motoras quanto usuários que precisam de mãos livres.
Conforme destacado no guia “Inclusive Design for Mental Health”, também da Microsoft, o design também deve considerar a saúde mental. A experiência do usuário pode influenciar diretamente seu estado emocional, afetando sua motivação e capacidade cognitiva. Por exemplo, interfaces claras e previsíveis reduzem o estresse e a sobrecarga cognitiva, promovendo uma experiência mais positiva.
Para garantir a acessibilidade nos seus produtos digitais, você pode começar com essas dicas:
- Avaliação Contínua: Teste os produtos com usuários reais e use ferramentas de análise de acessibilidade.
- Customização: Permita que os usuários ajustem configurações, como tamanhos de fonte e contrastes.
- Educação e Sensibilização: Se capacite e capacite sua equipe para entender a importância da inclusão desde o início do processo de design.
A acessibilidade em UX e Design não é apenas uma responsabilidade legal, mas também uma oportunidade de criar experiências mais significativas e inclusivas. Como profissionais, temos a responsabilidade de projetar para todos, reconhecendo que a diversidade humana é um recurso valioso para inovação. Ao abraçar o design inclusivo, não apenas cumprimos a lei, mas também criamos produtos que realmente transformam vidas.
Pense nos projetos digitais que você trabalha ou trabalhou. A acessibilidade era uma preocupação?
Se você gosta ou precisa se aprofundar nesse assunto, deixo abaixo alguns links que podem te ajudar:
https://inclusive.microsoft.design
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm
https://www.gov.uk/guidance/government-design-principles

